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[13/03/2008] • 3 comentários

A morte é «passagem» do homem para a eternidade, “nela o homem acaba de nascer totalmente e, se for para o bem, chamar-se-á de céu como plenitude divina e humana no amor, na amizade, no encontro e na participação de Deus. Toda a vida humana é um tender, um caminhar e educar-se para isso: um processo de amadurecimento pessoal que, na morte, deve desabrochar totalmente.”


(L. BOFF, Vida para além da morte, Vozes, Petrópolis 1993, p. 55)

[12/03/2008] • 1 comentários

Ainda sem reponder ao teu desafio, recordou-me o último poema de Torga no seu Diário. Partilho-o.

Aproxima-se o fim.
E tenho de acabar assim
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido de corpo
E tolhido da alma
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em longo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.
(Miguel Torga, Diário XVI, p. 201)

E, já agora, um outro texto, também dele, mas ainda na "infância". Afinal o assunto nunca ficou resolvido. E em nós, para além das convicções que, imagino, uma grande parte de nós partilha, é assunto sempre a dar trabalho. E esse desejo, de uma vida que não acabe com a última pancada do coração, um mistério...
Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiosos, a coisa foi secando, secando, até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da igreja com a cara que trazia o meu vizinho ! Não é que eu tenha verdadeiramente pecados, ou que, se os tivesse, algum Deus fosse capaz de me lavar deles. (Até o último aldeão sabe que quando muda um marco não há céu que lhe benza a maroteira). Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração.
(Miguel Torga, Diário I, p. 27)