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[24/06/2008] • 3 comentários

Aqui estou eu em Maputo, viva e totalmente embrenhada no espírito moçambicano.
Eles são os mestres nos compromissos, porque raramente os cumprem. Sabem aquela expressão "devagar, devagarinho, parado"? Pois, isto é muito frequente por aqui...

Uma outra expressão é "há-de se fazer"... Por exemplo: "Os contactos não estão feitos!" - resposta: "Há-de se fazer!"

Hoje fui com os dois amigos que tenho ao meu lado ver casas. Dos vários encontros que tínhamos para esta tarde, só conseguimos ver uma! Para servirem uma refeição são capazes de demorar 30 a 60 minutos para entregar a comida!

Portanto, já estou aqui há dois dias mas já sou moçambicana!

Estamos juntos :)

[terça-feira, junho 24, 2008] • 3 comentários

Este desafio do Nuno calhou numa semana engraçada para mim.
Como muitos já sabem, vim de comboio desde Bergen até Lisboa, uma viagem de 10 dias.
Como não havia rotina possível, nunca usei a expressão "não tenho tempo". Mas:

1.passei uma noite em Taizé e no dia seguinte tinha que apanhar os comboios Macon-Lyon, Lyon-Montpellier, Montpellier-Barcelona. Entre cada um desses comboios tinha que esperar cerca de 40 minutos. Eu só pensava "que seca, que tempo perdido... bastavam ser 20 minutos". O primeiro comboio chegou 40 minutos atrasado. Aaaah, não consegui apanhar o segundo previsto! Apanhei outro e apenas por 2 minutos apanhei o último que me ia levar a Barcelona. O único do dia... Ufa...

2.a Laura não leu todas as condições de um bilhete de interrail e assumiu que a última viagem apenas tinha que começar até à meia-noite do último dia. Fazia sentido. Estava eu na minha última etapa, o comboio Madrid-Lisboa, às 23h, quando o revisor apareceu. Em espanhol disse-me que o meu bilhete não era válido e que teria que sair do comboio até à meia-noite. Ou pagar o bilhete na totalidade. Afinal tinha que terminar a minha última viagem à meia noite do último dia. "Mas não tenho dinheiro, nem onde ficar!" Levou o meu bilhete ao superior e toda a noite dormi sobressaltada porque pensava que eles iam voltar. Pensava "Não posso dormir, não posso dormir, para ter poder de argumentação".
Às 2h da manhã um novo revisor ligou as luzes e pediu os bilhetes a toda a gente. "Bolas, e agora? Agora nem sequer tenho bilhete, vou ser expulsa de certeza". Mas afinal o primeiro revisor estava lá e disse ao segundo "Esta é a menina do interrail." (afinal eramos todos portugueses). O segundo, aparentemente superior ao primeiro,disse que já voltava a mim. Apagou as luzes. Mais umas horas de incerteza, até que às 7h da manhã me disse "Este bilhete não é válido, e viajou mais 8h do que o permitido, mas não lhe vou fazer nada." 2º ufa

3. nesta viagem de norte para sul, os dias tornaram-se, progressivamente e num pequeno período de tempo, cada vez mais pequenos. Agora em Bergen já quase não havia noite e era difícil dizer quando dar o dia por findo.

Agora de volta, vou começar período de exames. Calendários de estudo, aqui vamos nós.

[20/06/2008] • 0 comentários

A pedido da Elsa, num post anterior, postei um texto do Eclesiastes. Mas não fiquei descansado. Fiquei a pensar que o pessoal poderia, simplesmente, fazer uma leitura do “bonito” que o texto é...
Acontece que o texto além de “bonito” é de facto uma pequena lição de vida inserida num texto maior que é uma grande lição de vida.
Para ajudar, espero, deixo aqui uma parte de um trabalho que fiz sobre o Livro do Eclesiastes (confiram ASENSIO V. M. Livros sapienciais e outros escritos, p. 182-208 , se quiserem saber mais).
Também espero que além de gostarem, aprendam um cadito...


O grego ekklesiastes traduz qohelet razoavelmente bem, termo em consonância com o título hebreu, língua em que poderia fazer referência à função do mestre da sabedoria de «convocar/reunir» gente da sua escola. No grego designa aquele que se senta ou fala numa assembleia. “Ainda que o nome pareça, pois designar o autor do livro como membro de uma assembleia, talvez alguém com uma função especial como a de porta-voz, nada sabemos sobre a natureza dessa hipotética assembleia: se era religiosa ou política... académica ou profissional.”
A primeira sensação que experimenta o leitor desta insólita obra é a de se encontrar fora do AT, fora até da literatura sapiencial: “a fé judia na eleição de Israel, no carácter paradigmático da libertação do Egipto e na relação de Aliança entre Javé e o povo eleito primam pela sua ausência”.


Estamos diante de um autor que se propõe uma tarefa muito mais ambiciosa que os dos Provérbios e de Job.
O primeiro, na linha da sabedoria tradicional, propõe aos seus leitores o modo de adquirir um conhecimento que assegure a existência, em todas as suas facetas de prosperidade, felicidade, longa vida e perpetuidade de nome, tendo o temor do Senhor como fio condutor. Daí que a retribuição do homem seja regulada a partir das suas obras: frutos da sua disponibilidade, e resultados do seu conhecimento orientado pelo mesmo temor do Senhor.
Em Job, encontramos uma mudança de acentos: a vítima de uma divindade, nada misericordiosa, só é capaz de suportar a sua agonia na expectativa de recuperar a sua antiga amizade com Deus, que no entanto se esconde por detrás de um impenetrável silêncio. Mas Job faz o seu caminho, sem dúvida, com a certeza de que arriscava a vida, mas com a confiança absoluta no universo e no seu Criador.
Qohelet parece não confiar nem no conhecimento nem em Deus. Não porque não cresse n’Ele, mas porque considera o homem incapacitado para gerir os dons e a presença de Deus neste mundo. “Os autores da sabedoria convencional jamais fariam sua a afirmação de Qohelet: «Detesto a vida, pois vejo que a obra que se faz debaixo do sol me desagrada: tudo é vaidade e correr atrás do vento.» (2, 17).”
Contra tudo, inicia a sua busca, parte do facto de que tudo tem o seu tempo e oportunidade. Mas, enquanto, a sabedoria convencional partia da convicção de que o esforço cognoscitivo, metodicamente dirigido, era capaz de dar com o tempo oportuno para realizar a acção certa, Qohelet não acredita que o ser humano possa desenvolver tal capacidade. É certo que tudo tem o seu tempo (cfr. 3, 17ss.), mas não é menos certo que «não existe obra, nem reflexão, nem conhecimento nem sabedoria» (9, 10) e que «o homem não conhece o seu tempo» (9, 12). “Esta é em definitivo, a mensagem do poema sobre o tempo (3, 1-8).
Nas fronteiras existenciais entre o nascimento e a morte, o homem dispõe de possibilidades significativas. O pior é que é impossível conjugar o momento adequado com a acção apropriada... O drama do ser humano radica na impossibilidade de dar um golpe certeiro no negócio da vida.” Possivelmente o golpe mais duro à tradição sapiencial se encontre em 9, 11, onde Qohelet cita textos da sabedoria convencional e utiliza criticamente o seu imaginário: «a corrida não depende dos mais ligeiros, nem a batalha dos heróis, o pão não depende dos sábios, nem a riqueza dos inteligentes, nem o favor das pessoas cultas: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte».
Se a sabedoria não consegue alcançar os seus propósitos, destino igual tem a honra. Assim, outro paradoxo que o nosso autor encontra é o fracasso da honra e o triunfo dos sem vergonha: «já vi de tudo em minha vida de vaidade: o justo perecer na sua justiça e o ímpio sobreviver na sua impiedade» (7, 15). Como que fica inutilizado o esforço humano. Se o sábio convencional poderia dizer a Qohelet que «o néscio cruza os braços e vai-se consumindo», este poderia responder: «mais vale um bocado de lazer do que dois bocados de trabalho, correndo atrás do vento» (4, 6ss.).
Exame derradeiro é a morte que destrói as eventuais conquistas do homem, tornando-as inúteis. “Neste contexto fica a dúvida se Qohelet deixa a porta aberta à possibilidade da vida com Deus após a morte.” O que permitiria que o homem desse as boas vindas à morte que o libertaria de um mundo oprimido pela violência e pela dor.
Surpreende numa obra canónica judia a afirmação da impossibilidade de conhecer a Deus. Consciente do mistério que envolve a Deus, em vez de percorrer o caminho da adoração, Qohelet expressa um crítico encolher de ombros. O seu Deus “não deixa pistas perceptíveis na Sua criação; a sua actividade é tão misteriosa como a Sua natureza.”
Deus constitui uma espécie de muro contra o qual se estatelam os esforços humanos por O conhecer. Qohelet arrisca neste ponto uma acusação a Deus, ao afirmar o seu convencimento da culpabilidade de Deus no fracasso cognoscitivo do homem, pois o põe à prova para lhe fazer ver que não é mais que um animal: « quanto aos homens penso assim: Deus os põe à prova para lhes mostrar que são animais. Pois a sorte do homem e do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro...».
Diante deste panorama, Qohelet esforça-se para reservar para o homem o disfrute dos prazeres. O único bem que acontece ao homem neste mundo desordenado é comer e beber (cfr. 2, 24; 8, 15; 9, 7-9), enquanto a idade e as forças lhe permitirem (cfr. 11, 7-10), sendo esse o pagamento pelos seus esforços. Contudo longe duma corrente hedonista, “concebe o disfrute das coisas boas como dom de Deus (2, 24; 9, 7b)”

Fica claro que Qohelet se afasta dos esquemas de pensamento e das fórmulas doutrinais oferecidas pelo AT em geral, e pela sabedoria convencional em particular. Contudo, “temos de reconhecer que é relativamente larga a lista de crenças vetero-testamentárias que a obra de Qohelet confirma implícita e explicitamente”: crê num só Deus criador, transcendente e omnipotente; numa humanidade nascida do espírito divino, mas destinada ao pó de que saiu; na liberdade do homem... Claro que está mais interessado pelo indivíduo do que pela comunidade nacional, mas trata-se de um traço típico da velha sabedoria, que comparte com Provérbios e com Job. Contudo, descreve e aceita a impotência humana diante da liberdade de Deus, o que não deixa lugar para a relação pessoal com Aquele. Por isso “nunca o vemos dirigir-se a Deus em diálogo, quer na oração quer na lamentação, para invocar a sua ajuda ou para se queixar amargamente do seu silêncio e da sua injustiça aparente”: contrariamente à atitude de Job ou dos salmistas.




Eclesiates 3, 1-8
Para tudo há um tempo,

para cada coisa há um momento debaixo dos céus:
tempo para nascer, e tempo para morrer;
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;
tempo para matar, e tempo para sarar;
tempo para demolir, e tempo para construir;
tempo para chorar, e tempo para rir;
tempo para gemer, e tempo para dançar;

tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las;
tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se.

Tempo para procurar, e tempo para perder;
tempo para guardar, e tempo para jogar fora;

tempo para rasgar, e tempo para costurar;
tempo para calar, e tempo para falar;

tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.

[sexta-feira, junho 20, 2008] • 0 comentários

O Valor do Tempo

"Fico sempre surpreendido quando vejo algumas pessoas a exigir o tempo dos outros e a conseguir uma resposta tão servil. Ambos os lados têm em vista a razão pela qual o tempo é solicitado e nenhum encara o tempo em si - como se nada estivesse a ser pedido e nada a ser dado. Estão a esbanjar o mais precioso bem da vida, sendo enganados por ser uma coisa intangível, não aberta à inspecção, e, portanto, considerada muito barata - de facto, quase sem qualquer valor. As pessoas ficam encantadas por aceitar pensões e favores, pelos quais empenham o seu labor, apoio ou serviços. Mas ninguém percebe o valor do tempo; os homens usam-no descontraidamente como se nada custasse.


Mas se a morte ameaça estas mesmas pessoas, vê-las-ás a recorrer aos seus médicos; se estiverem com medo do castigo capital, vê-las-ás preparadas para gastarem tudo o que têm para se manterem vivas. Tão inconsistentes são nos seus sentimentos! Mas se cada um de nós pudesse ter um vislumbre dos seus anos futuros, como podemos fazer em relação aos anos passados, como ficariam alarmados os que só podem ver com alguns anos de antecedência e como seriam cuidadosos a utilizá-los! E, no entanto, é fácil organizar uma quantidade, por pequena que seja, daquilo que nos está garantido; temos de ser mais cautelosos a preservar o que cessará num ponto desconhecido.


Mas não deves pensar que tais pessoas não sabem como é precioso o tempo. Dizem com regularidade àqueles de quem são particularmente chegados que estão dispostos a dar-lhe alguns dos seus anos. E dão-lhos sem estarem conscientes dele; mas a dádiva é tal que eles próprios perdem sem acrescentar nada aos outros. Mas o que de facto não sabem é que estão a perder; assim, podem suportar a perda do que não sabem que se foi."


Séneca, in 'Da Brevidade da Vida'

[sexta-feira, junho 20, 2008] • 1 comentários

Aproveito para partilhar convosco dois textinhos que circulam na net e que de vez em quando temos o privilégio de receber na nossa caixa de correio como que a recordar-nos que "o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança" (António Gedeão).


O Banco do Tempo

"Imagina que existe um banco que, todas as manhãs, adiciona à tua conta €86.400. Contudo, esse estranho banco não transfere o teu saldo de um dia para o outro: todas as noites apaga da tua conta o saldo que não gastaste. O que farias?... Imagino que retirarias todos os dias a quantidade que não tinhas gasto! Pois bem: todos nós temos esse banco. O seu nome é TEMPO. Todas as manhãs, esse banco adiciona à tua conta pessoal 86.400 segundos. E cada noite esse banco retira da tua conta e dá como perdida qualquer quantidade desse saldo que não transformaste em algo proveitoso."



O Relógio da Vida

"Para entender o valor de um ano, pergunta a um estudante que repetiu o curso.

Para entender o valor de um mês, pergunta a uma mãe que olha para um bebé prematuro.

Para entender o valor de uma semana, pergunta ao editor de um jornal semanário.

Para entender o valor de uma hora, pergunta aos amantes que esperam para se encontrar.

Para entender o valor de um minuto, pergunta ao viajante que perdeu o comboio.

Para entender o valor de um segundo, pergunta a uma pessoa que esteve na iminência de ter um acidente.

Para entender o valor de uma milésima de segundo, pergunta ao desportista que ganhou uma medalha de prata nas olimpíadas."

[sexta-feira, junho 20, 2008] • 1 comentários


em, "Um livro para todos os dias" da Planeta Tangerina