[04/06/2008] • 2 comentários

Olá!! Aqui estou eu, finalmente.
Digamos que estes dias têm sido muito cheios. Entre festas, voluntariado de jazz, despedidas e trabalho final da faculdade, muita coisa me tem ocupado.
É sobre o trabalho final que vos quero falar. Isto porque o cenaculum acabou por ser a rampa para este projecto.
Lembram-se do desafio da Rita? Aí falei sobre dois livros, O Estrangeiro e A insustentável leveza do ser e sobre o facto de levantarem questões sobre justiça e moral humana, que lançaram um grande debate em mim.


No primeiro, Mersault parece conduzir as suas acções condicionadas não por guias morais da sociedade onde vive, mas antes (talvez) impulsos interiores. No final do livro mata um homem na praia. É levado a tribunal e na sua defesa não se considera culpado ou inocente, apenas se justifica através da forte luz do sol que o perturbou naquele momento. É condenado à morte

No A insustentável leveza do ser, Milan Kundera traça um paralelismo entre o mito de Édipo e a situação dos comunistas. Muito brevemente, Édipo mata um homem e casa-se com uma mulher. Mais tarde descobre que estes eram seu pai e sua mãe. Apesar de não o saber aquando da sua acção, Édipo considera-se culpado e condena-se à cegueira, vazando os olhos com agulhas.
Kundera, através de um artigo escrito por Tomas, a personagem principal, pergunta se tendo este exemplo, os comunistas devem ser considerados ou não culpados. Estes lutaram por um ideal que consideravam belo, mas de tão concentrados nessa imagem, não se aperceberam ou secundarizaram (?) as atrocidades que foram cometendo pelo caminho. E assim, não estando plenamente conscientes dos horrores que foram realizando porque toldados pela beleza da sua utopia, tal como Édipo não o estava quando fez o que fez, como devem eles ser julgados?

A partir daqui sabia que queria trabalhar com uma imagem/objecto que fosse reconhecido pela maioria das pessoas como fruto de algo atroz. Construí um edifício bombardeado. No fundo construí um edifício destruído... Uma das paredes tinha dois furos de balas, em que parte do tijolo ficou à vista e de onde partiam rachas.
Entre essa parede e a parede de uma sala estavam uma lupa e uma lâmpada direccionada para os furos. Na parede da sala onde estava a instalação, era assim projectada uma bonita paisagem com duas flores. Deste modo, o que para nós é horrível era percepcionado pela parede da sala como algo belo. A lupa funciona de certe modo como uma ideologia que a parede não tem capacidade de contornar e ver o que nós vemos.
E deste modo, devemos considerá-la culpada ou inocente?

Bom, e agora respondendo ao desafio da Ana:
Recomendo O Estrangeiro de Albert Camus ao António Repolho, se por acaso aqui passares.
A Insustentável Leveza do Ser recomendo a todos, porque levanta questões de tão diversa ordem que poderá tocar a todos, mesmo que de formas muito diferentes.

2 comentários:

Alx disse...

Olá desaparecida!

Dois livros que mem marcaram. Tenho de o dizer. Alás, Kundera continua a ser o meu romancista preferido, apesar da pouca produção dos últimos anos. Quanto ao Estrangeiro, li-o há dois anos. Arrepia. A frieza da escrita e da personagem. O passarmos quase para a outra margem... -e no entanto é amis um daqueles livros que antecipa tantas vivências da actualidade. Apetece, ou apeteceu e pronto.

Só mais uma coisa. Compara com o mito da caverna do Platão. Penso que ainda enriqueceria mais o teu trabalho....

Gambuzino disse...

Adorei a ideia, a tua explicação e o resultado final... Laura! De ti orgulho-me! :-)
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