[09/11/2009] • 12 comentários

Quando abraçamos um Homem, não é o seu físico que abraçamos, é a sua alma, os seus valores, num sinal de admiração, cumplicidade e entrega.

Quando nos prestamos a “abraçar” o Mundo, tentando, tal como num abraço amigo, transmitir essa mesma cumplicidade, admiração e entrega, é também a deus que “abraçamos”, quanto mais não seja porque nos deixámos “abraçar” pela mensagem dele, ainda que não percebamos por vezes o que ela quer dizer. Não é preciso ser Católico para transmitir deus, basta ser Homem. Quando “abraçamos” o Mundo, através do “abraço”/abraço dado aos seus cidadãos, mais que a eles, “abraçamo-nos” a nós, aos nossos valores, às nossas crenças, aos nossos sentimentos e ao nosso projecto futuro, definindo, não quem somos, mas quem queremos ser.

Contudo, quando “abraçamos” a deus, podemos não “abraçar” o Mundo. Podemos fazê-lo, mas não obrigatoriamente. Podemos abraçar a sua imagem, abraçar a sua Igreja e até abraçar o pedinte que está ao nosso lado na celebração. Mas, se olharmos para a Igreja como o espaço de deus (e não falo só do templo), então poderemos não perceber que também nós, individualmente, somos um templo andante, movendo-nos perto de outros templos, cantando com eles, mas não “abraçando” o Mundo. O Mundo não é uma Igreja, nem sequer é um planeta de Católicos ou Cristãos, é um planeta de animais onde, por acaso, alguns são Homens. Porque raio se tenta então abraçar o Mundo através do nome de deus? Isso é cunha! Mas, se “abraçarmos” o Mundo enquanto meros Homens, vamos também abraçar deus, porque “abraçamos” a sua obra, o seu ideal. Como dois irmãos a quem os pais somente pedem que se dêem bem. Se eles se derem bem, não é preciso muita coisa para os pais se sentirem felizes, eles simplesmente sentem-se bem porque os dois filhos se dão bem.

Resumindo: “Quem meus filhos beija, minha boca adoça” (“abraçar” o mundo), mas quem me adoça a boca a mim antes de a meus filhos, pode não ser nada, mas também pode ser uma grande hipocrisia.

12 comentários:

P.A. disse...

Bem... este texto merece um comentário com mais tempo. São muitas as incongruências que vejo e vou ver se conseguirei esmiuçar algumas ... a seu tempo.

Rafa disse...

Cá estarei para responder por elas =)

P.A. disse...

a) Sem querer parecer ortodoxo, questiono o emprego saramaguiano da palavra deus em minúscula, ao contrário do que indica o próprio título e outros substantivos usados no próprio texto (Homem, Mundo, Católico). Não sei se será uma mera questão ortográfica, ou uma opção que visa um questionamento mais profundo. Em frente.
b) "Não é preciso ser Católico (cristão?) para transmitir deus...". Pois não. Depende do Deus que queremos transmitir, porque o que não falta por aí são imagens de Deus. Mas uma coisa é certa: para transmitir o Deus de Jesus Cristo, é preciso ser cristão.
"Quando “abraçamos” a deus, podemos não “abraçar” o Mundo". Aqui discordo completamente. Quer do ponto de vista cristão, quer do ponto de vista meramente filosófico-ontológico. A nossa opção por abraçar Deus, "obriga" a abraçar o mundo. A dialética Eu/Deus só se traduz efectivamente na relação Eu/Mundo.
Fico-me apenas por estes dois pontos e de forma muito resumida, porque,honestamente, não percebi muito bem o conteúdo do texto, sobretudo a ideia final ilustrada com um adágio popular.

Rafa disse...

Espero não deixar ninguém chateado com alguns pontos de vista meus, alguns deles estão, e estarão certamente, em permanente actualização. Tentarei responder a tudo, deixando já a nota que vi este texto muito com base na vertente de Inacção Católica, colocando-a na "berlinda" na forma como eu a vejo. Vamos lá então:

a) Relativamente a deus, foi sempre uma escolha minha escreve-lo com letra minúscula, porque o considero um adjectivo, tal como amizade ou semelhantes. Porque, pessoalmente acredito que ele terá outro nome, e que, caso o venha um dia a conhecer, o descobrirei. Pode ser uma panca, mas não é só para ser do contra, por mais gosto que eu tenha em por vezes o ser. Homem para diferenciar géneros. Mundo para fazes a distinção entre mundo próximo, local e Mundo planetário. Católico, porque é nomenclatura adoptada.

b)Eu não creio ser necessário ser Cristão para difundir deus. Acredito que se difundirmos a sua mensagem, mesmo que a desconheçamos, estamos a difundir os seus valores, e consequentemente a levá-lo as pessoas.
"abraçar" a deus e não abraçar o mundo..bem, este surge mais como critica/provocação, enaltecendo as pessoas cuja ideia de fé e crença se baseia num "ir à missa" ou no fazer o bem para com quem é seu semelhante, ou seja, tem os mesmos comportamentos e valores, ignorando por vez os seus "menos semelhantes" (diferentes religiões, etnias, hábitos), não agindo enquanto cidadãos do Mundo, mas auto-intitulando-se exemplos de vida e donos da melhor visão existente, sendo intransigentes à mudança, aquilo a que eu designo (sem ofensa)como Religião Quadrática. (Como Católico que sou, considero que a minha é a melhor visão, mas não posso negar que tenho muito que aprender com outras religiões)...este ponto, como disse, maximiza a visibilidade de quem não "abraça" o Mundo, apesar da grande maioria, creio (e espero) o fazer.



Finalmente, acho que se respondi a alguns pontos (de forma aceitável ou questionável), mais pontos levantei...o que, de certo prisma, não deixo de achar positivo. Afinal, é do confronto de ideias e opiniões que surgem novas visões e, considerando a minha falta de conhecimento teológico (e não só), é este debate que me poderá fazer mudar de perspectivas.

P.A. disse...

Rafa: obviamente que não é preciso ser cristão para anunciar deus, sobretudo se ele é "apenas" um adjectivo. Porém, e foi isso que tentei frisar, se queres anunciar o mesmo Deus de Jesus Cristo, tens que ser cristão e para o ser não basta ir à missa ao domingo.
E para picar: se Católico escreves com maiúscula "porque é nomenclatura adoptada" (o que não é, de todo, já que, esta sim, pode ser um adjectivo), por quê deus em minúscula "porque apetece"? A coerência também passa por aqui, não?.

P.S. E não fico chateado com os teus pontos de vista que não são apenas teus... Apenas mando umas achas para a fogueira da discussão.

Rafa disse...

Caro P.A.

eu acho que o ponto está mesmo no "anunciar", ou seja, na parte cinética da questão. Concordo que para anunciar o deus de Jesus Cristo, não basta ir à missa, porque o objectivo é levar a sua palavra e doutrina, por outro lado, já não estão tão de acordo quanto à necessidade de ser Cristão para o anunciar, afinal ele é também um deus de valores universais, comuns a várias religiões e sociedades tão dispares quanto o magnata russo e o chefe tribal da Papua Nova-Guiné, pelo que o poderei levar às pessoas inconscientemente. É claro que aqui é que estava a minha "farpa" neste ponto, é que isso já não é "anunciar" como o P.A. bem o diz, mas sim uma experienciação directa e sem background.

Quanto à nomenclatura, aqui está algo sobre o qual já fiquei a pensar numa possível mudança minha. Sempre associei a "Igreja Católica", e por isso sempre ter escrito Católica com maiúscula...mas terei de reflectir, é possível que venha a mudar também, segundo esse prisma. Contudo, sinto-me relutante, confesso.

Também gostaria de ter outros pontos de vista sobre o assunto, para saber se o que apresentei foi um conjunto de blasfémias ou algo sobre que, através de uma análise da acção e alguma critica, se pode efectivamente pensar.

Fabi disse...

Concordo com o Rafa quando diz que não é preciso ser cristão para anunciar Deus. Por um lado, porque recentemente fiquei sem saber o que é que a Igreja pretende que ser cristão, ou ser católico, signifique. Vou casar e pretendo casar-me, como católica que sou, pela Igreja. No entanto, sou uma acérrima defensora das liberdades individuais e respeito totalmente a posição do meu noivo que, não se assumindo como católico, pretende casar como não-católico apesar de também ele respeitar a minha liberdade e aceitar fazer uma cerimónia religiosa. E a Igreja aceita isto muito bem! O que a Igreja não aceita é que o meu noivo não seja católico porque é baptizado. Ora, isto para mim não pode fazer sentido: estamos nós interessados em não cometer hipocrisias em não professar uma fé que não existe e depois a Igreja pretende que uma pessoa não crente se assuma diante de uma Assembleia e se assuma como crente, cristão e católico?
Por outro lado, conheço muitas pessoas ditas não cristãs, de acordo com esta lógica de ideias, que anunciam Deus de forma absolutamente veemente, como a Catarina por exemplo.

P.A. disse...

Sendo assim sugiro que respondam:
a) o que é ser cristão?
b) que Deus é que anunciam?
e já agora c) como se anuncia esse Deus?

The Clerk disse...

Leio e revejo no drama que tem sido a minha relação com Deus nos últimos anos: na Vontade de O Explicar, perco o Sentir-me com Ele e nisso, o Sentir-me com os outros. Bolas, ando diabolizado, pensar e sentir não andam coerentes e por muito que pense e diga "sou cristão" não ajo nem me sinto sempre como tal. Católico então... Ou seja, até posso pensar em abraçar o mundo e mesmo fazê-lo, mas de nada me serve se não sentir o mundo nos (a)braços. (as maiúsculas estão bem?) he he he

Rafa disse...

...cá estou de novo, e mais uma vez, dentro do pouco tempo que tenho, tentarei responder às perguntas do P.A.

a) ser cristão, para mim, é acreditar em Jesus Cristo de Nazaré. Na pessoa cuja existência já se comprovou, e na sua "ligação" a um deus (o meu deus), bem como na sua mensagem, embora ás vezes com denominações diferentes.

b) Acho que o devia anuniar mais a ele, através do anuncio dos seus valores e palavra, mas ainda assim, creio anunciar (na medida dos possiveis, dentro da minha inércia) deus, "materializado" Jesus Cristo.

c) como se anuncia esse deus? bem, essa é complicada. parece comércio...como se "vende" a alguém, algo que sabemos que as pessoas precisam ou que lhes faria bem? confesso que mão faço ideia....ainda assim, não deixo de ficar contente por algumas pessoas não se deixarem "salgar", já viram o quanto o catolicismo e o cristianismo já evoluiram devido ao contacto com as outras religiões? o quanto esse contacto enriquece as pessoas?

Gostava ainda de fazer uma pequena questão. Ontém, após alguns dias a adiar, fui ver "deus/Deus" a dois livros: "o livro do conhecimento - Circulo de Leitores" e "Larousse"...e a ideia geral com que fiquei, é que em termos de escrita, se fala em deus para religiões politeistas e Deus para monoteitas, como forma de o distinguir como sendo o único, supremo. É esta a fonte da nossa divergência de escrita P.A., ou é outra que desconheço?

P.A. disse...

Rafa: com essas respostas, já podemos, então dar um passo em frente na nossa discussão.
De facto, ser cristão passa por acreditar na pessoa de Cristo. E acreditar passa, tem de passar, por viver como Ele nos ensina, como ele vive, quer na relação com o Pai-Deus, quer na relação com os irmãos-homens-mundo. A segunda relação é, nesse sentido, uma concretização da primeira. Quem diz que ama (abraça) a Deus que não vê e não ama (abraça) o irmão que vê, é mentiroso (citação livre do evangelho). Por isso, não faz sentido NENHUM dizer-se que se anuncia este Deus não sendo cristão. Ou sim, ou sopas. Não há meios termos nesta questão, ao contrário do que se possa pensar.
Ora, Jesus ensina-nos que essa relação com Deus não é uma mera emoção que se possa adjectivar (deus, em minúscula), mas uma relação efectiva com Alguém (humanamente falando) com uma Pessoa, que existe de facto e que ama. Exemplo: se eu amo a Sónia, não vou escrever "eu amo a sónia". Tudo bem que pode ser uma questão gráfica, mas esse tipo de questões guardo-as, por exemplo, para um cartaz.
Assim, o anúncio de Deus não passa pelo proselitismo a que nós associamos frequentemente a ideia de Igreja-Instituição. Passa, e era aqui que queria chegar, por abraçar o mundo, amar o Homem, à maneira de Jesus.

P.S. Em termos estritos de escrita será como dizes na parte final e bem.

Rafa disse...

OK P.A.,

mas uma pessoa (com minúscula) que "abrace" o seu irmão, não abraça obrigatoriamente deus (se é questão de gramática diferenciativa, e não teologia, permanecerei com a minha adjectivação), pode nem acreditar nele, e ainda abraçar os seus valores e levá-lo aos outros.
Eu não conheço a Sónia, mas se eu lhe mostrar, mesmo não conhecendo a Sónia, por palavras ou gestos, que demonstrar apreço e amizade por alguém, é algo bom, então o P.A. pode canalizar automaticamente essa realidade para o seu amor pela Sónia. Daí eu dizer, não é preciso ser cristão para levar deus ás pessoas, mas é necessário ser cristão para, consciente e intensionalmente, o levar ás outras pessoas. Logo, na minha interpretação, faz TODO o sentido que seja possível =)

com tudo o resto, concordo completamente...

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