[01/05/2008] • 14 comentários

Outra coisa que muito me tem feito pensar é a palavra "Especismo".

Wikipedia:
O especismo é uma discriminação muito arraigada culturalmente e não tão reconhecida socialmente. Baseia-se na diferença de espécie. De modo similar ao sexismo ou ao racismo, a discriminação especista pressupõe que os interesses de um indivíduo são de menor importância pelo mero feito de se pertencer a uma determinada espécie. De acordo com a igual consideração de interesses [1], qualquer que seja a espécie, os interesses semelhantes devem ser respeitados. Inferir dor num animal sem se preocupar com isso, é ignorar o princípio básico da igualdade, que parte da premissa da igual consideração de interesses.

Foi o Vasco de Taizé a primeira pessoa que me falou nesta palavra.
Mais tarde li o seguinte na "Insustentável Leveza do Ser", de Kundera:

"Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. É claro que o Génesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa que a humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas."

(aqui penso que Kundera falha por atribuir o conjunto da humanidade principalmente à cultura ocidental, esquecendo-se de budistas ou hindus, por exemplo.)

"Tereza (...) pensa que a humanidade é um parasita da vaca, tal como a ténia é um parasita do homem: está presa às suas tetas como uma sanguessuga. O homem é um parasita da vaca - seria certamente a definição que a zoologia de um não-homem daria do homem."

"A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros."

O que mais me perturba é, sem dúvida, o paralelismo com o racismo. Durante séculos ninguém contestou (os europeus) a validade desta relação. E agora é para nós algo absolutamente atroz.
Mas se o fazemos em relação aos animais, que reacção temos nós?
Não tenho grande prática de relacionamento com os animais, é verdade. Nunca soube muito bem como lidar com os cães ou os gatos na rua. E confesso que já tive vontade de dar pontapés aos pombos. Porque sei que nunca consigo acertar-lhes. Mas estou a aprender a dizer-lhes olá e a todos os outros animais que vão aparecendo, incluindo insectos... :)

Não sou vegetariana, mas praticamente não tenho comido carne. Mas como peixe, ovos e leite... Ainda não estou segura, mas deixar de os comer é uma hipótese que coloco.

Não sei como terminar isto. Fim.

14 comentários:

Elsa* disse...

claro que faz sentido....
E esta reflexão também!

uma partilha: durante o tempo que estime de erasmus deixei, totalmente, de comer carne.
não sei exactamente porquê. Mas senti-me muito bem assim.
Sei que não foi por respeito aos animais ou algo do género porque acho mesmo que o mundo precisa que nos vamos comendo uns aos outros (homens aos animais, portanto!).
****

Rafa disse...

eu penso que ninguém questiona porque isso implicaria reflectir sobre todos os actos que mesmo sem gostar acabamos por executar...já imaginas-te um budista com o dilema moral de matar a galinha ou morrer à fome?
Nós aqui por estes lados foi-nos ensinado a proteger a galinha...mas se tiveres fome...a pergunta é diferente...já é "será assada no forno ou será de cebolada?"

Não conhecia o especismo...mas é uma treta!!! Nesse tipo de coisas...abençoados os Hindus e os Budistas...tenho pena de não ter aprendido a ser um pouco mais como eles...porque quando o meu gato se estica um bocado eu meto-o no chão...e não deixo de comer carne ou peixe só porque as plantas não gritam quando morrem, porque se as alfaces gritassem também ninguém as comia...e porque se um jacaré tiver com um buraco no dente também te crava o dente...a diferença é que nos somos cobardes (ou covardes, estou sempre na duvida), e usamos mil e quinhentos aparelhos para levar a melhor...

Alx disse...

faz-me um favor: lá vegetariana podes ser... -fufa é k não!!!!!!


jinhos

Laura Marques disse...

Já li os comentários há algum tempo, mas não tive mesmo capacidade para responder logo... Nem sei se a vou ter agora...
O problema é mesmo o facto das pessoas não estarem para se chatear e reflectir sobre todos os actos que cometem... E acho assustador como podemos ter algo como tão garantido - que temos que comer animais, porque sempre foi assim (não tenho a certeza, mas alguém me pode afirmar que sempre foi assim?)

Isaías 66:3
Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço a um cão; quem oferece uma oblação, como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso, como o que bendiz a um ídolo. Porquanto eles escolheram os seus próprios caminhos, e tomam prazer nas suas abominações

encontrei parte da passagem neste texto controverso:

http://www.tiosam.com/Biblia/biblia.asp?livro=23&capitulo=66&NomeLivro=Isa%C3%ADas

Contudo acho que esta passagem será referente a sacrifícios, e não para matar a fome... De qualquer forma achei importante a comparação entre a vida de um boi e a de um homem.

Se há galinha há outras coisas para comer - se ela vive, é porque ainda tem algum alimento... Esse alimento não nos permite sobreviver?

E outra coisa em que penso é como é tão fácil para nós dizermos que somos o único animal dotado de razão, mas nunca (?)conseguimos analisar as nossas ideologias com objectividade...

Finalmente, não percebo a ligação entre vegetarianismo e homossexualidade... Mas estou a tentar...

Com esta mensagem não quero converter ninguém ao vegetarianismo, porque eu própria não sou vegetariana, apenas perceber como a relação homem-animal pode ser repensada... (se o puder ser...)

Gambuzino disse...

"...O verdadeiro teste moral (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros."

Aquela que me faz mais sentido é esta. E não se inclui apenas noutras espécies mas também noutros situações: mulheres (violência doméstica, violações), crianças (abuso infantil)... O forte deve amar e desejar proteger o fraco e não subjugá-lo. Todas as grandes coisas começam pelas pequenas. Como posso querer mudanças sociais no comportamento entre os homens e nem dar o bom dia ao vizinho? Defender ecologia e deixar lixo numa mata só porque ninguém está a ver? Colocar uma maquilhagem e roupa bontita e odiar a minha pessoa? As pequenas coisas compõem as grandes e a integridade deveria acontecer em todos os níveis, caso contrário as acções/modificações apenas tem efeito superficial e nunca em profundidade.


Rafa...
A relação entre homosexualidade e vegetarianismo desconhecia completamente, mas (e isto que vou dizer é apenas uma hipótese) talvez se deva a existir uma maior sensibilidade e ao facto de se ter começado a por em causa aquilo que nos rodeia. De um modo geral parece-me conseguir-se observar um padrão. Assim que alguém questiona um aspecto e começa a utilizar a auto-reflexão crias a abertura para começar a por em causa outras coisas... uma espécie de efeito bola de neve. Assim surgem padrões engraçados: anarquistas, vegetarianos, espirituais, homosexuais?, góticos, dançarinos, artistas, filósofos, positivistas, whatever... surgem alguns padrões. O denominador comum penso ser todos terem iniciado a auto-reflexão e a partir do momento que se põe em causa a sexualidade começa a surgir a propagar-se a questão a outras áreas em que nunca reflectimos: alimentação, sociedade, quem sou eu? o mundo é como me foi pintado? Até onde o que eu sinto é real ou deturpado?... etc.
Ainda que exista o denominador comum não quer dizer que um provoque o outro.
Quanto à questão da alface que grita... bem isto é dito comum e que não sei e que por incrível que pareça pouca gente consegue-lhe responder e sinceramente não compreendo porquê. Mas relembrando:
em grosso modo temos: mineral, vegetal e animal
mineral - rochas, constituidos por nutrientes, se batemos numa pedra esta não grita mas faz um som engraçado tipo.. "poc poc", mas por exemplo se lhe aplicarmos um acido os nutrientes reagem, podendo oxidar por exemplo

vegetal - constituido por nutrientes e sistema nervoso. se lhe patermos com uma pedra esta não grita, no entanto o sistema nervoso reage numa acção básica de acção reacção. aqui simplesmente transmite-se informação, um pouco como o termóstato do aquecedor de uma casa. Casa muito quente desliga aquecimento, casa muito fria liga aquecimento.
animal - possui nutrientes, sistema nervoso, cérebro, memória, sistema nervoso digestivo (associado também ao sentir, emoções e memória) sistema sanguineo, linfa, etc. Neste se batermos com uma pedra (mineral) ou um pau (vegetal) ou mesmo com um kanguru (animal) este já expressa um som semelhante a "au!" Isso deve-se a possuir uma mente, sistema digestivo e memória que permite experimentar emoções, sentimentos, etc. Vou contar uma história interessante e meio macabra mas ao estilo Tim Burton. Tenho um amigo que trabalhou numa funerária e que costumava vestir os mortos e ele contava que por vezes se picassem uma pessoa morta o braço mexia afastando-se ou outros fenómenos semelhantes. A pessoa está morta mas o sistema nervoso intacto. Assim o braço continua a reagir como um termóstato mas o morto não grita... porque não sente, está morto e ainda bem para os senhores que o vestem.
O dilema moral de matar a galinha ou morrer à fome é relativamente simples: matar a galinha e comê-la, da mesma forma que comeriamos fruta podre se realmente algum dia soubéssemos o que é fome. Este dilema aliás é muito semelhante a este. Mataria alguém que tentasse matar-me ou outros? Bem este dilema também me parece simples, sim. Agora se me parece correcto matar a galinha sem ter necessidade ou matar o homem porque é bom e isso até é socialmente aceite... parece-me um pouco exagerado.
Agora vem as questões seguintes: mas é a tradição... mas o homem é racional... etc. Bem basicamente, podemos encontrar justificativas para tudo e mais alguma coisa. Mas aí está a parte divertida da auto-reflexão e mais do que encontrar certezas absolutas o bom estará nas dúvidas que cria. Aprendamos a viver com elas pois fazem parte da vida como a certeza de que todos iremos morrer. Vivamos então com alegria porque a cada festa que termina uma nova começa :-)
"Não existe regra sem excepção... e isto é uma regra"
"Uma mente quer-se como um paraquedas... bem aberta"
E agora é tempo de pequeno-almoço :-) Casas da Ribeira rulas e a família espera lá fora!
Abraço grande a todos!

Laura Marques disse...

Oh, obrigada pelo comentário, vasco! :)
Mas tenho que "defender" o rafa e o abílio:
Foi o abílio que fez a alusão à homossexualidade, e no fundo acho mesmo que não era por ver uma relação entre vegetarianismo e homossexualidade. Acho que era mais uma provocação pessoal, para não ser demasiado "alternativa". E eu tentei provocar também. É isto, abílio? :)
Beijinhos!

Rafa disse...

Confesso que estava a ficar assutado...estava a ver que palavra é que tinha usado que tinha referido homossexualidade...tipo "onde está o wally"...obrigado pela resposta a minha duvida Elsa :)

mas tenho de concordar com o que o gambuzino disse...no grosso da questão...queria contudo acrescentar uma pequena história (com h e não e, note-se) sobre a reacção vegetal:

Aqui há uns tempos, numa região africana, uma árvore, da espécie "Acacia", aquilo que nós por cá chamamos as mimosas, ou outra da mesmo género, espécie diferente...foi plantada...e tal como cá, cresceu exponencialmete..havia uns animais..parecidos com gazelas, que apos a expansão destas arvores, aprenderam finalmente a come-las...e a espécia deixou de estar "em possibilidade de extinção"...mas de u7m momento pro outro, num espaço reduzido, todas as árvores da região desta espécie começaram a produzir um veneno nas suas folhas...actualmente a espécie semelhante a gazelas está "em perigo real de extinção"...

com que então é só acção/reacção?
isso não inclui a comunicação generalizada íntra-especifica, nem uma luta pela sobrevivencia...alguns cientistas e botanicos andam-se a passar com o sucedido...ha mesmo novas teorias para a extinção ou morte de alguns tipos de espécies sáureas...

Gambuzino disse...

E agora desviando um pouco tema.
Essa história que contaste das plantas é interessante Rafa. Já a conhecia mas de uma espécie de acácias das quais as girafas se alimentam. Depois há fenómenos mais estranhos ainda, como plantas que murcham com heavy metal e que ficam mais viçosas com mozart por exemplo.
E ainda mais estranho... algo que li à uns anos num livro de astronomia ("Um pouco mais de azul", de Hubert Reeves) em que este físico dizia que ao longo da história do universo os átomos tem vindo a evoluir... e isto realmente é estranho, pelo menos olhando do prisma meramente analítico do método de Descartes (vulgo ciência actual).
À pouco tempo comentei com a Laura que quanto mais estudei/estudo de ciência mais me parece que afinal não se sabe grande coisa. Arranjam-se palavras que parecem pomposas e pouco mais.
Mas isto dava outro blog.
Realmente li mal, mas tinha acordado à pouco tempo.
E já agora quanto ao Wally, a razão de ele estar sempre escondido deve-se a este estar a fugir do Chuck Norris... ele anda aí! :-O
http://tymonn.blogspot.com/2007/01/factos-sobre-o-chuck-norris.html

Alx disse...

Sim Laura, a "provocação" era pessoal e a picar-te!!!! Nada de paralelismos entre vegetarianismo e homossexuadidade. Nunca fiz essa reflexão enão estou sequer disposto a fazê-la! Reconheço que nos novos cânones sou um "homofóbico"... -mas não conheço mais homofóbicos que os próprios homossexuais...-mas isto daria panos para mangas.
Por outro lado conheço poucos "homo" e já os conheci assim (não me fazem grande diferença, só qie t~em aqueles gestos "demasiado femininos", digo eu, porque há por aí umas teorias muitos estranhas: confiram o construciomnismo social e deliciem-se com que a falta de algumas proteínas no cérebro e umas "feromonas" mal orientadas podem fazer...). Agora se um amigo do peito se "transformasse!!!" em "homo" faria-me diferença, isso faria. Desculpem mas penso assim...

E tenho dito.
Beijos
e
Abraços

Laura Marques disse...

Aaaah, não resisto...
Um dos meus melhores amigos, o meu "exemplo de humanidade", pelo modo incrivelmente como se dá aos outros, é vegan e bissexual.
Ha pouco tempo teve que fazer umas análises, e a única anomalia que estas mostraram foi excesso de proteínas...
Agora o que isto quer dizer, não sei...

Alx disse...

quanto às proteínas também não sei.

mas deixa que te diga que não teci nenhum comentário negativo relativamente à qualidade como pessoas dos "homo". Como em qualquer "grupo", deve haver bons e maus... e não me assusta nada relacionar-me com eles. o que eu digo é que me é estranho, "causa-me espécie"...

Rafa disse...

respondendo ao Gambuzino...

"O título original para Star Wars era "Skywalker: Texas Ranger", estrelando Chuck Norris, ele recusou o papel porque se ele usasse "a força", Darth Vader falaria fino para o resto da vida."

...nada mais consigo acrescentar depois disto :P

Rafa disse...

Alx...eu já passei pela experiencia de um amigo de infância que não via já há algum tempo, me encontrar no café e me apresentar o namorado...

...apesar de não ter conseguido conter o riso...pedi desculpa, porque afinal de contas desconfiava, mas nunca um homem me tinha apresentadao o namorado...foi estranho ao principio..um homem a fazer olhinhos a outro e eu e o resto da malta a assistir...mas houve respeito pelas decisões...apesar de não as assinarmos por baixo, todos aceitamos e, após conversa com eles...so posso dizer...é estranho? ao principio sim...condiciona a forma de estar? se calhar se a nossa propria sexualidade não estviver definida talvez...come-nos um bocado? lol...só se deixarmos!!!
tirando isso (este comentário homofóbico sem funadamento algum que não a minha parvoice provenienete do meu sentido de humor negro)...são pessoas iguais...é como uma gaja muito muito boa ir pra freira...há algume que gosta a não ser a vizinha feia???

Patita disse...

Já que estamos no mundo virtual acessível a todos, creio que também posso mandar palpites...
Li o artigo principal e os comentários de uma só vez e parece-me que realmente o rumo da "conversa" mudou um pouco.
O meu comentário é única e exclusivamente que se o ser humano nem consegur respeitar os da própria espécie como pode encontrar abertura suficiente para compreender, aceitar e repeitar os seres de outras espécies! É um facto triste mas óbvio, no dia a dia e pelo que vejo aqui mesmo...
Deixo-vos também com a frase de um amigo vegan que respeito muito, nunca é tarde para mudar mas é urgente que o façamos!
Beijinhos

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